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Sotaque sem medo
O sotaque deixou de ser defeito.
Ruy JobimDiretor da Escola de Rádio

Durante muito tempo, a primeira coisa que se corrigia num aspirante a locutor era a origem. O chiado, o "r" puxado, a vogal aberta, a cantiga do nordeste, tudo isso era tratado como "sujeira" na voz. O bom profissional era aquele que não vinha de lugar nenhum.
Em 1974, a Globo começou a treinar seus repórteres de vídeo, período em que a fonoaudióloga Glorinha Beuttenmüller passou a trabalhar na emissora. Nasceu ali o famoso padrão Globo, que acabou neutralizando o sotaque dos jornalistas e virou regra também em outros veículos, com o argumento de que o sotaque seria um ruído capaz de ofuscar a notícia. Os pesquisadores têm outro nome para essa neutralidade: muitos chamam de sotaque de natureza ideológica. Porque neutro mesmo nunca foi. Era um jeito de falar escolhido como o certo, e todos os outros passaram a soar como errados.
Pois a coisa virou. Em 2019, no especial de 50 anos do Jornal Nacional, a bancada do JN recebeu apresentadores de cada estado, e depois disso a Globo chamou alguns desses jornalistas para um rodízio fixo de apresentadores. A mesma bancada que ensinou o Brasil a esconder o sotaque passou a exibir os sotaques do Brasil.
Na publicidade a mudança é ainda mais clara. Segundo a pesquisa Diálogo com os Brasileiros, 87% das pessoas dizem gostar de ver sotaques diferentes nas campanhas. (Eu discordo). Outro levantamento, da Opinion Box mostra que 69% dos brasileiros já compraram ou quiseram comprar algo indicado por um influenciador da própria região. Até no audiolivro a lógica mudou: hoje há casos em que a narração busca refletir a origem do personagem ou do autor, para dar mais autenticidade.
Por que isso aconteceu? Na minha leitura, por causa da internet. Quando qualquer pessoa pode falar para milhões do celular, a voz perfeita e sem endereço começou a soar como voz de anúncio. E o público aprendeu a desconfiar de anúncio. O sotaque virou prova de que existe uma pessoa de verdade do outro lado.
Isso não significa que vale tudo. Sotaque não é desculpa para dicção ruim, para engolir sílaba ou para falar sem respirar. Em sala, eu continuo cobrando clareza, ritmo e articulação. A diferença é que hoje eu não peço a ninguém para apagar de onde veio.
A voz neutra tinha uma vantagem: servia para qualquer lugar. O problema é que, justamente por isso, não pertencia a lugar nenhum. E ninguém lembra de uma voz que não pertence a lugar nenhum.