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Da geladeira para o bolso
Antes um aparelho na geladeira e hoje os aparelhos no bolso.
Ruy JobimDiretor da Escola de Rádio

Na casa onde cresci, o rádio ficava em cima da geladeira, único lugar onde pegava bem. A antena tinha um pedaço de palha de aço na ponta porque alguém disse que melhorava a recepção, e ninguém nunca testou o contrário.
Quem mandava e desmandava no aparelho era minha mãe. Ela ligava cedo na Rádio Globo e só desligava à noite.
Ela ouvia trabalhando. Passava roupa, cozinhava, lavava o quintal, e o rádio seguia falando. Era um barulho útil, uma forma de saber que o mundo continuava funcionando enquanto ela resolvia o almoço. Se não ligasse o rádio, rolava certa depressão. Eu, pequeno, ouvia tudo: anúncio de loja onde nunca entrei, voz de locutor que nunca vi. Se hoje trabalho com voz, parte disso vem da infância "dentro" de uma emissora sem saber.
Agora corta para a sala de aula. Meus alunos chegam de fone no ouvido, cada um num programa diferente. Podcast de finanças, de crimes, playlist montada pelo Spotify. Ouvem o que querem, quando querem, em velocidade 1,5x. Antes, a casa inteira sabia a mesma notícia ao mesmo tempo. Hoje, numa mesma sala, cada um está num lugar.
Vai dizer que piorou?
O rádio da minha infância também tinha seus limites: pouca variedade, horário fixo, e quem perdia o programa, perdeu. O preço da fartura de hoje é que ninguém mais compartilha a mesma referência. E está tudo bem.
Perguntei aos alunos onde ouvem seus podcasts. No ônibus, na academia, lavando louça. Com as mãos ocupadas, como minha mãe. O aparelho saiu da geladeira e foi para o bolso, mas continua fazendo companhia a quem está em outra atividade.
Cada geração escuta como pode. O ouvinte é que continua quase o mesmo. E isso não é bom?