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Voz x profissional
O que separa a pessoa comum do narrador profissional.
Ruy JobimDiretor da Escola de Rádio

A pessoa comum lê o texto, enquanto o narrador profissional interpreta esse texto para quem ouve. Parece simples gravar um audiolivro, é só ler em voz alta, mas não é fácil: não é narrar, é preciso interpretar, e por isso é comum contratar, além de locutores, atores e dubladores. Um narrador profissional definiu bem a questão: narrar audiolivro é atuação, não apenas leitura.
Compreensão do texto. O profissional estuda a obra antes de gravar? Nao precisa. Para o ator irlandês McMillan, ler um livro em voz alta exige entender como as palavras funcionam, o arco de uma frase, o peso de um parágrafo e as mudanças de tom e clima. Outra narradora resume que o trabalho é tanto entender o fluxo da fala quanto atuar. A pessoa comum costuma ler frase por frase, sem enxergar a construção do todo. (irishtimes) (humber)
Técnica vocal. O leigo depende da voz que tem; o profissional controla a voz que usa. O trabalho exige resistência vocal e domínio de articulação, ritmo e modulação, e o controle da respiração ajuda a criar uma escuta contínua e agradável. Sem esse preparo, aparece o problema que os ouvintes mais criticam: numa pesquisa brasileira sobre a Audible, uma leitora reclamou que o narrador não tinha entonação e por isso "era tudo muito cru".
Resistência e consistência. Um livro pode ter dez horas ou mais. O narrador precisa dar vida a cinco, seis ou mais pessoas num único capítulo e manter todas consistentes ao longo da gravação. Em obras de não ficção, precisa soar firme por horas sem cair naquele tom monótono que faz o ouvinte checar quanto tempo falta. O profissional também conhece o próprio limite: os narradores não costumam gravar mais que três horas por dia, porque depois disso a voz cansa e o cansaço aparece no áudio.
Curiosamente, um bom narrador muitas vezes passa despercebido. Ele serve ao texto. Uma narradora diz que, seja qual for o livro, o papel do narrador é ser um intermediário entre a intenção do autor e o ouvinte. O amador tende a errar para os dois lados: ou lê sem vida, ou exagera e chama atenção para si.
Há ainda o lado técnico e de mercado. O profissional tem um espaço acusticamente tratado e equipamento de qualidade (pouco investimento) para manter o padrão, e hoje acumula funções: atua, faz testes, administra o próprio negócio, se dirige sozinho e cuida da parte da qualidade de som.
Resumindo o que deve ser feito porque a voz é só o ponto de partida. O que separa o profissional do leigo é o preparo: entender o texto, controlar respiração e ritmo, sustentar personagens e energia por horas e entregar um áudio tecnicamente limpo.