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Vamos votar

Ruy JobimDiretor da Escola de Rádio

Urna eletrônica

Escolher uma roupa é pensar duas vezes na cor. Uma camisa vermelha deveria ser só uma camisa vermelha, e uma amarela, só lembrança de Copa do Mundo. Mas a gente chegou a um tempo em que tudo tem partido: a novela, a cerveja, a padaria da esquina, até o nome do cachorro. Outro dia elogiei um filme e me olharam como se eu tivesse revelado um segredo. Eu só tinha gostado da fotografia.

O país virou uma arquibancada dividida ao meio, e o curioso é que ninguém mais assiste ao jogo. Está todo mundo de costas para o campo, gritando para o outro lado da arquibancada.

Mesmo assim, vou votar, e vou com vontade. Sei que muita gente torce o nariz para a palavra obrigação, mas vejo o voto como a manutenção de uma casa enorme onde todos nós moramos. Ninguém acorda feliz para trocar o encanamento, só que, se ninguém troca, um dia tudo alaga.

O difícil é o caminho até a urna, porque no meio dele existe o grupo da família. Começa às seis da manhã com um girassol desejando bom dia e, de repente, aparece um áudio de quatro minutos de alguém que tem um primo que sabe de uma coisa que ninguém está contando. Quase sempre é alguém com medo, ou alguém querendo proteger quem ama.

Eleição após eleição, as fake news mudam de roupa, ganham vozes que parecem verdadeiras com IAs, mas a receita continua a mesma: um pouco de verdade, muita indignação e pressa para compartilhar.

Quando algo me faz ficar tenso em dois segundos, desconfio. Raiva é o combustível preferido de quem fabrica boato.

Para mim, democracia é isso: discordar de verdade e continuar dividindo a mesa com pessoas diferentes, mas precisam ser educadas.

Vote.

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