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Trinta segundos para convencer um país
E um fôlego só para desperdiçar os mesmos 30 segundos
Ruy JobimDiretor da Escola de Rádio

Todo ano de eleição eu faço um pacto comigo mesmo: vou assistir ao horário eleitoral como cidadão, e não como professor de locução. O pacto dura uns quatro minutos. No quinto, já estou criticando cada frase, cada sílaba que desistiu de existir no meio do caminho, cada olhar perdido procurando a câmera ou o TP como quem procura a chave de casa no fundo da bolsa.
Não estou falando de política. Estou falando de convencimento. Vejo candidatos que talvez tenham boas propostas, mas que entram no vídeo como quem entra num elevador lotado: ombros encolhidos, sorriso de foto 3x4, olhos presos no papel. E então começa a corrida. O sujeito tem doze segundos e trinta ideias, faz a conta e conclui que a solução é falar mais rápido. É como tentar levar a mudança inteira dentro de um Fusca. Alguma coisa vai cair na estrada, e geralmente cai justamente a parte que importava.
O resultado chega ao meu ouvido mais ou menos assim: saúde, educação e segurança viram um único bicho de três cabeças chamado "saudeducassegurança". O erre desaparece, o esse vira chiado, o final da frase morre porque o fôlego acabou antes da ideia. E eu fico sem saber se ele prometeu construir um hospital ou se apenas espirrou com convicção.
O microfone não perdoa. Ele é um amplificador honesto: aumenta a voz, mas aumenta também a pressa, a insegurança e a falta de preparo. E o eleitor não aperta o botão de voltar. Aqueles poucos segundos são, muitas vezes, o primeiro e único encontro entre quem pede o voto e quem vai decidir.
O que mais me intriga é que as campanhas gastam fortunas com jingle, cenário, iluminação e edição caprichada. Mas quase ninguém investe uma tarde para ensinar o candidato a respirar, articular e olhar para a lente como quem olha para uma pessoa. Ninguém dirige sem carteira de habilitação, mas qualquer um pode ocupar a televisão do país inteiro sem nunca ter ouvido a própria voz gravada com atenção.
Bastaria ensinar o básico que eu repito em sala há anos: uma ideia por inserção, e não vinte. Pausa também é argumento. Respirar antes de começar é sinal de respeito. E a câmera não é uma multidão, é uma pessoa só, sentada em casa, esperando ser convencida.
No fundo, meu recado aos candidatos é simples. Antes de pedir meu voto, peça minha atenção.