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Podcast. Ouvir ou assistir?
... ou ouvir o vídeo minimizado?
Ruy JobimDiretor da Escola de Rádio

Será o fim do áudio?
Quem vem do rádio, como eu, aprendeu cedo que a voz basta. Que dá para prender alguém só com palavras, pausas e um bom silêncio na hora certa. Por isso confesso que olho com uma mistura de curiosidade e desconfiança para o que está acontecendo com o podcast.
O nome nasceu da junção de iPod com broadcast. Era, lá no começo, um arquivo de áudio que a gente baixava para ouvir depois. Hoje essa palavra parece pequena demais para o que virou. O podcast está no YouTube e desde janeiro deste ano, até na Netflix.
O que mudou, na minha visão, é que o podcast deixou de ser definido pela tecnologia e passou a ser definido pela aparência. Uma conversa longa, informal, com jeito de improviso e, principalmente, com microfones aparecendo bem grandes na tela. Bastam dois Shure em cima da mesa para qualquer pessoa olhar e dizer: isso é um podcast. Mesmo que esteja assistindo em 4K, no sofá da sala. E a sala virou mesmo o lugar: só no YouTube, as horas de podcast vistas em aparelhos de TV quase dobraram de um ano para o outro.
Tem uma coisa nisso tudo que me intriga. Hoje alguém pode se dizer fã de um podcast sem nunca ter ouvido um episódio inteiro. A pessoa conhece os cortes. Os trechos de um minuto que aparecem no Instagram e no TikTok. O podcast virou uma fábrica de recortes, e o produto de verdade já não é a conversa de duas horas, mas os cinco ou seis momentos que viralizam. O Brasil, aliás, é campeão nisso. Somos um dos países onde o videocast mais cresce, justamente por causa dessa cultura do clipe compartilhado.
Essa ida para a tela tem um preço. Podcasts narrativos, de investigação, com trilha, ambiência e trabalho cuidadoso de som, são caros para transformar em vídeo bonito. Já a mesa de bate papo é barato de filmar.
Para as plataformas, pouco importa o nome. Pode chamar de podcast, programa de TV ou videocast. O que interessa é que você não feche o aplicativo. A Netflix entrou nessa briga com força e janpossui inúmeros títulos e episódios. Mas, curiosamente, os números de audiência ainda não animaram: segundo a imprensa americana, foram tão modestos que a empresa nem divulgou os podcasts no seu relatório do semestre. Nos Estados Unidos, só 5% do público aponta a Netflix como lugar principal para consumir podcast. O YouTube segue disparado na frente.
E aí chego à pergunta que mais me interessa. Se o podcast virou vídeo e foi parar na TV, ele perdeu sua maior vantagem? Aquela liberdade de ouvir dirigindo, cozinhando, arrumando a casa, com os olhos livres?
Os dados me deixam otimista. A própria Netflix contou que seus podcasts são mais vistos durante o dia e no celular, fora do horário nobre. Ou seja, muita gente deixa rolando de fundo, como quem liga o rádio. E a grande maioria do público ainda diz que "ouve" podcast, não que "assiste".
Então, respondendo ao meu título: não, não acho que seja o fim do áudio. O vídeo virou a vitrine, o que chama a atenção. Mas o que segura a pessoa ali, episódio após episódio, continua sendo a voz. Talvez estejamos vendo apenas o fim do áudio sozinho. E, para quem trabalha com voz, isso é menos uma ameaça e mais um convite.
E você? Assiste ou ouve seus podcasts?