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O microfone não mente, mas às vezes exagera
E tem que ser assim pela falta de imagem.
Ruy JobimDiretor da Escola de Rádio

Uma coisa que aprendi e ninguém me contou quando eu era menino e ficava grudado no rádio da cozinha, ouvindo aquelas vozes que pareciam morar dentro do aparelho. Ninguém me disse que o microfone é um fofoqueiro. Daqueles que escutam o que você não disse e espalham para a cidade inteira.
Aprendi isso cedo, numa noite as 22h na Radio Roquette Pinto na minha estreia. Eu tinha ensaiado o texto umas 10 vezes. Sabia cada vírgula, cada respiração. Sentei, a luz vermelha acendeu, e eu abri a boca. Saiu tudo certinho. Palavra por palavra. E mesmo assim, quando ouvi a gravação depois, lá estava ela: a insegurança. Ela estava no finalzinho das palavras, que caíam um pouco antes da hora. Estava numa pausa que durou meio segundo a mais. Estava num agudo que escapou quando eu quis parecer firme. Eu não tinha gaguejado, não tinha errado nada. Mas o microfone tinha contado a todo mundo que eu estava com medo.
Quem trabalha com imagem tem um aliado que nós, do áudio, não temos. Na televisão, um sorriso aparece. A câmera mostra o olho brilhando, a sobrancelha que sobe, a mão que gesticula. No rádio, no podcast, no audiolivro, não há nada disso. Há só a voz, sozinha no escuro, tendo que fazer o trabalho de um corpo inteiro. E é justamente por isso que ela denuncia tudo.
Faça um teste agora se puder. Diga "bom dia" com a cara fechada. Agora diga de novo sorrindo de verdade. O ouvinte não vê o seu rosto, mas ele escuta o sorriso. O sorriso muda a forma da boca, abre o som, deixa a voz mais clara, quase iluminada. Eu costumo dizer aos meus alunos que o sorriso tem cheiro no áudio. Você não enxerga, mas sente quando entra na sala.
O cansaço também aparece. E esse é mais difícil de disfarçar. Já gravei muito cansado achando que ninguém ia perceber. Coloquei energia, subi o tom, caprichei na articulação. Na hora de ouvir, a voz estava ali, toda arrumadinha por fora, mas arrastando por dentro. O cansaço mora no fundo das vogais. Ele deixa o final das frases pesado. O ouvinte pode até não saber explicar o que sentiu, mas sente. E desliga às vezes.
Por isso eu digo que, no áudio, a gente precisa carregar na tinta. Não é exagerar, não é virar uma caricatura. É entender que a voz precisa pintar aquilo que os olhos não vão ver.
Não adianta empurrar o texto de qualquer jeito, ele acaba mostrando. O único caminho que funciona é estar presente de verdade, inteiro.
O microfone é danado!