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Microfone não pergunta como você está
Interpretar não é opção. É trabalho.
Ruy JobimDiretor da Escola de Rádio

Tem dia que a gente acorda e o corpo avisa logo cedo que não vai colaborar. A cabeça pesada porque girou a noite toda, o café sem gosto, uma preocupação sentada na beira da cama esperando você abrir os olhos para começar a conversar. E eu já tive muitos dias assim. Muitos mesmo. Só que, em todos eles, havia um compromisso que não sabia nada do meu humor: o horário na rádio.
O rádio não espera. O relógio do estúdio não tem "botão de soneca". Às seis horas a vinheta entra, a luz vermelha acende e, do outro lado, tem alguém no carro, na cozinha, no ônibus lotado, esperando ouvir aquela voz que conhece. Essa pessoa não sabe que eu dormi mal. Não sabe que recebi uma notícia ruim na véspera. E, sinceramente, nem precisa saber.
Foi aí que aprendi o que é ser profissional, e isso levo até hoje para a sala de aula: a interpretação precisa ser maior que a nossa vontade de interpretar.
Parece frase de efeito, mas é ofício puro. Quando o astral está lá em cima, qualquer um brilha. A voz sai redonda, o sorriso aparece sozinho, a piada encaixa. O desafio de verdade mora nos outros dias, naqueles em que tudo dentro de você pede silêncio, mas o trabalho pede presença. É nesse momento que separamos quem fala bem de quem é comunicador.
E o que eu fazia? Eu me imitava.
Isso mesmo. Nos dias ruins, eu chamava o Ruy dos dias bons. Lembrava como ele respirava antes de abrir o microfone, como ele inclinava o corpo para frente quando queria chegar mais perto do ouvinte, como ele sorria antes da primeira palavra, porque sorriso se ouve. Eu virava meu próprio cover. E sabe o que acontecia? Lá pelo terceiro bloco, o original aparecia.
Muita gente torce o nariz para isso. Acha que é falsidade, que o certo seria mostrar exatamente o que se sente. Eu discordo com tranquilidade. Existe um acordo silencioso entre quem fala e quem escuta, e eu sempre fiz questão de cumprir esse acordo.
Imitar a si mesmo não é fingir ser outra pessoa. É lembrar quem você é quando a memória falha. É pegar emprestado da sua melhor versão aquilo que hoje está em falta.
Hoje, quando um aluno chega na ER+ dizendo que não está num bom dia para gravar, eu sorrio e respondo que esse é justamente o melhor dia para aprender. Porque gravar feliz é fácil. Gravar quando o mundo pesa é o que transforma alguém em profissional.
Então fica aqui meu conselho, de quem já abriu muito microfone com o coração apertado: conheça bem a sua melhor versão. Observe como ela fala, como ela respira, como ela olha para o mundo. Guarde isso com cuidado. Um dia você vai precisar imitá-la. E vai descobrir, no meio do caminho, que ela nunca foi embora. Só estava esperando você chamar.
Na foto o palhaço Carequinha.