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Ler todo mundo lê. Narrar é outra história.

Ruy JobimDiretor da Escola de Rádio

"Professor, eu sempre li muito bem." Eu acredito. Mas ler bem para os olhos e ler bem para os ouvidos são vizinhos que falam línguas diferentes.

O ouvinte não tem a página

Alfabetização é transformar risquinhos em sentido, em silêncio, para mim mesmo. Se perco o fio, volto a linha. Quem me escuta não pode voltar. Não vê parêntese, aspas nem itálico. Tudo que o autor resolveu com tinta, eu resolvo com voz: a vírgula vira respiração, o ponto vira silêncio, o parágrafo vira mudança de cena.

Antes do microfone, o lápis

Narrador profissional não improvisa. Lê em silêncio caçando o ritmo das frases, marca onde respira (se der, né?) e onde enfatiza, ensaia em voz alta.

Tudo isso com fôlego: um livro de dez horas pode custar de quarenta a setenta horas de estúdio. A voz precisa chegar inteira ao último capítulo.

Saber quando sumir

Narrar também não é encenar tudo. Um texto técnico pede clareza e quase invisibilidade. Um romance pede alma. O alfabetizado lê tudo do mesmo jeito. O profissional escolhe quanto de si coloca em cada trabalho.

A chave e a casa

Alfabetização é a chave da casa. Narrar é saber receber visitas. Então, para você que chega agora na Escola de Rádio: valorize a leitura que já tem, mas leia tudo duas vezes antes de falar. Grave e se escute. E no dia em que o ouvinte esquecer que alguém está lendo e simplesmente estiver dentro da história, aí sim você vai poder dizer: eu sei narrar.


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