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Herança: a dicção que vem de casa.

Ja reparou que copiamos os códigos de um grupo?

Ruy JobimDiretor da Escola de Rádio

Família conversando

A gente aprende a falar copiando. Nos primeiros anos de vida, o ouvido da criança registra o jeito como os adultos da casa pronunciam cada palavra, e a boca vai treinando para reproduzir exatamente aquilo. Se o pai fala "pobrema", se a mãe diz "vamo", "fazê", "tá bão", se todo mundo engole o final das frases ou fala com a boca quase fechada, esse passa a ser o modelo de fala correta para aquela criança. Ela não está errando; está imitando com perfeição.

O detalhe que confunde muita gente é justamente o "mas eu entendia tudo". Entender tudo é o que mantém o problema escondido. Dentro de casa, todos compartilham o mesmo código: o cérebro de quem ouve completa as sílabas que faltam porque já conhece o assunto, as pessoas e o contexto. Como a comunicação funcionava, ninguém sentiu necessidade de articular melhor, e ninguém corrigiu. A má dicção virou o normal da família.

O efeito aparece quando essa pessoa sai do círculo familiar. Um professor, um cliente, um ouvinte de rádio não tem aquele código na cabeça. Então começam os "como?", "repete, por favor", a impressão de que a pessoa fala rápido demais ou "embolado". E ela própria muitas vezes não percebe, porque o ouvido foi calibrado para achar aquele som natural. Além disso, língua, lábios e mandíbula passaram anos repetindo os mesmos movimentos, criando um hábito muscular.

A boa notícia é que se trata de hábito, não de defeito. Com atenção ao próprio som (gravar a voz e ouvir é o primeiro passo), exercícios de articulação e leitura em voz alta, o ouvido se recalibra e a musculatura aprende um novo padrão. Quem cresceu assim não fala mal por falta de capacidade; apenas aprendeu bem demais o modelo que tinha.

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