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Desculpa o áudio longo
A redundância. Uma crônica.
Ruy JobimDiretor da Escola de Rádio

O celular vibrou às 7h43. Era a Marta. Abri o WhatsApp e lá uma mensagem de voz de sete minutos e doze segundos. Sete minutos. Tem música da MPB que conta uma história de amor inteira, com começo, meio, traição e reconciliação, em menos tempo que isso.
Coloquei na velocidade dois. Não adiantou. Marta em velocidade dois continua sendo Marta, só que mais ofegante.
O áudio começa assim: "Oi, tudo bem? Então, deixa eu te falar uma coisa". Pausa de quatro segundos. Barulho de panela. "Peraí." Mais três segundos. "Pronto, voltei. Então, como eu ia dizendo." Ela não ia dizendo nada. Ela não tinha dito coisa alguma até ali. Mas Marta acredita, com a fé dos justos, que já começou.
Aos quarenta segundos, entra a contextualização. Marta não conta um fato sem antes apresentar a árvore genealógica dele. Para explicar que vai se atrasar para o almoço de domingo, ela precisa falar do primo que trocou de carro, do carro que deu problema na embreagem, da oficina que fica perto da padaria que fechou, da padaria que era do seu Arlindo, e do seu Arlindo, que, coitado, nunca mais foi o mesmo depois que a esposa foi morar com a irmã em Petrópolis.
Aos dois minutos e meio, eu já sabia mais da vida do seu Arlindo do que da minha própria agenda.
Aos três minutos, ela repete a informação principal pela primeira vez: "Então é isso, eu vou me atrasar um pouquinho". Achei que tinha acabado. Ingenuidade minha. Era só o "intervalo comercial". Logo em seguida veio o "mas assim", que é a expressão mais perigosa da língua portuguesa. Todo "mas assim" anuncia mais dois minutos de gravação.
Aos quatro minutos, ela repete de novo: "Só pra você saber que eu vou atrasar". Aos cinco, uma terceira vez, agora com outra roupa: "Não me espera pra começar, tá?". Aos seis, uma quarta: "Qualquer coisa vocês vão comendo". A mesma frase, com quatro figurinos diferentes, desfilando pela passarela do meu ouvido.
E o final, claro, é um clássico: "Bom, acho que era isso. Ah, e outra coisa". A outra coisa era a mesma coisa.
Quem trabalha com comunicação tem nome para isso. Redundância. Na teoria, a redundância é útil: repetir uma informação ajuda a fixar, garante que a mensagem chegue mesmo com ruído no caminho. O locutor de trânsito repete o nome da avenida engarrafada porque sabe que o ouvinte está dirigindo, distraído, com a criança brigando no banco de trás. Ali, repetir é gentileza.
A redundância da Marta é outra espécie. Não é estratégia, é insegurança. Ela repete porque não confia que disse. Não organiza o pensamento antes de apertar o botão do microfone; organiza durante, ao vivo, sem edição. O áudio de sete minutos é um rascunho que foi enviado como versão final.
E aí está a revelação. A mensagem longa diz pouco sobre o assunto e muito sobre quem fala. Quem não sabe chegar ao ponto, na maioria das vezes, ainda não descobriu qual é o ponto. Fala para pensar, em vez de pensar para falar. E transfere para o outro o trabalho de garimpar, no meio de tanto cascalho, a única pedra que interessa.
Existe também um pequeno egoísmo escondido no áudio comprido. Para quem grava, é cômodo: basta segurar o botão e deixar a cabeça passear. Para quem ouve, é uma sentença. Não dá para ler na diagonal, não dá para pular para o parágrafo importante, não dá para ouvir na reunião. O texto escrito permite que o leitor escolha o ritmo. O áudio de sete minutos sequestra o tempo alheio e ainda pede, no final, "me responde quando puder".
A resposta, no caso, cabia em seis palavras: "Vou atrasar, não me esperem, beijo". Três segundos. Talvez quatro, se ela fizesse questão do beijo com entonação.
Respondi por escrito: "Tudo bem, te esperamos". Dois minutos depois chegou outro áudio. Quatro minutos e cinquenta. Começava assim: "Oi, então, só pra te explicar melhor".
Desliguei o celular e fui almoçar. Cheguei atrasado.
Marta é uma figura fictícia.