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Decorar ou conversar?

A palavra exata nem sempre é a palavra correta.

Ruy JobimDiretor da Escola de Rádio

Cicero em pedra

No começo da minha vida no rádio, eu decorava (quase) tudo. Cada pequeno texto, cada abertura, cada "boa tarde". Achava que, se eu soubesse o texto de cor, nada poderia dar errado. Até o dia em que uma única palavra fugiu da minha cabeça no meio de uma frase e perdi o resto do parágrafo. Fiquei diante do microfone, ouvindo o silêncio mais longo de todos. Durou três segundos. Parecia uma semana.

Os caras da retórica antiga já separavam duas coisas: a memória das ideias e a memória das palavras exatas, e chegaram à conclusão de que guardar as palavras é bem mais difícil do que guardar as ideias. O próprio Cícero, veja só, admitia que lembrar das ideias já estava bom. Se até Cícero relaxou, quem sou eu para insistir? (Marco Túlio Cícero foi um orador e filósofo romano que viveu entre 106 e 43 antes de Cristo).

E tem explicação científica para isso. Nosso cérebro é econômico. Ele prefere guardar o significado geral de uma informação e não a sequência exata das palavras. Quando eu tento decorar palavra por palavra, estou brigando com a própria natureza da minha cabeça.

O preço dessa briga aparece no "palco". Quem decora tudo costuma soar como um robô: voz monótona, olhar parado e quando uma palavra é esquecida acaba derrubando a sequência inteira. Há também um dado que me chamou a atenção: palestrantes que decoram o texto relatam mais ansiedade do que aqueles que aprendem o conteúdo como conceitos. Eu achava que a decoreba me dava segurança, estava na verdade comprando nervosismo.

Qual a palavra que me interessa hoje? Conversa. Vivemos uma época em que o público quer gente, não gravação. Nas redes, nos podcasts, nas aulas, as pessoas percebem na hora quando alguém está "decorado".

Mas calma, não vim aqui jogar a memória no lixo. Decorar faz sentido quando a mensagem precisa ser precisa e quando a pessoa já tem treino para memorizar muito texto. O ator no teatro decora. O locutor de um comercial com tempo cravado, pode decorar. A abertura de um evento, a primeira frase de uma palestra, aquele fechamento que precisa ecoar na cabeça de quem ouviu: isso eu decoro sem medo de errar.

Hoje, quando preparo uma aula ou uma gravação, monto um mapa. Tópicos, frases guia e palavras importantes, em vez de um texto decorado. Decoro a entrada e a saída do texto. No miolo do conteúdo eu converso.

Então, até onde vale a pena decorar? Até o ponto em que a memória te guarda. A partir do momento em que ela começa a te prender, é hora de soltar a mão do texto e confiar naquilo que você sabe. Porque no fim das contas, quem está do outro lado não quer ouvir um robô. Quer ouvir você.

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