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Como eu uso a IA

Não pode ser em tudo e nem minha palavra final.

Ruy JobimDiretor da Escola de Rádio

Lampad nacessa

Tenho uma gaveta em casa que é a cara da minha cabeça. Lá dentro moram pilhas sem par, um carregador de celular que não sei de qual aparelho é, uma chave misteriosa e, de vez em quando, uma ideia anotada num guardanapo. Tudo ali tem valor. O problema nunca foi o conteúdo. O problema sempre foi encontrar as coisas.

Foi pensando nessa gaveta que eu fiz as pazes com a inteligência artificial. Sim, tivemos uma briga.

Quando comecei o rascunho do meu novo livro, escrevi um monte coisa sem mapa e sem organização. Deixei as palavras saírem do jeito que vinham, às vezes de madrugada, às vezes no intervalo entre uma aula e outra. Escrevi como quem conversa com um amigo antigo, sem me preocupar se aquele parágrafo deveria estar no começo ou no fim. Quando terminei, tinha nas mãos um material legal, mas desarrumado como a tal gaveta.

Entreguei o texto para a IA e pedi uma coisa simples: organize isso em capítulos, para que o leitor consiga caminhar pela minha ideia sem tropeçar. E ela fez. Separou, agrupou, sugeriu uma ordem que fazia sentido. Mas repare num detalhe que, para mim, é o centro de toda essa conversa: as palavras eram minhas. As memórias eram minhas. A voz era minha. A máquina não escreveu o meu livro. Ela arrumou a minha gaveta.

E é exatamente aí que mora o uso correto.

Eu não acredito que a inteligência artificial deva servir para tudo. Quem entrega para ela a tarefa de pensar, sentir e lembrar no seu lugar acaba recebendo de volta um texto bonito e vazio, como uma casa decorada onde ninguém mora. A IA não viveu a minha infância, não sentiu o frio na barriga da primeira vez que abri um microfone ao vivo, não conhece o silêncio de um estúdio às seis da manhã. Ela pode imitar o tom, mas não tem o que contar.

Por outro lado, recusar a ferramenta por orgulho também me parece um desperdício. Era orgulhoso.

O segredo, pelo que aprendi até aqui, está na ordem das coisas. Primeiro vem a gente. A ideia, a experiência, o rascunho imperfeito, a frase torta que carrega uma verdade. Depois, só depois, vem a máquina, como uma assistente de produção que organiza o roteiro, aponta repetições, sugere uma história mais clara. E por último volta a gente de novo, para ler tudo com atenção, cortar o que não soa como nós e decidir o que fica. A última palavra precisa ter nosso DNA.

A inteligência artificial pode errar com a maior convicção do mundo. Pode inventar uma data, trocar um nome, criar uma citação que ninguém disse. Por isso, tudo o que ela entrega passa pelo meu critério, como passaria qualquer texto de um estagiário talentoso, porém novato.

No fim das contas, penso na IA como uma lanterna dentro daquela gaveta bagunçada. Ela ilumina, ajuda a separar, mostra onde está cada coisa. Mas quem decide o que guardar, o que jogar fora e o que vale a pena mostrar ao mundo continua sendo a mão que abriu a gaveta. E sobre a bagunça, é minha bagunça!

E essa mão, pelo menos no meu livro, continua sendo a minha.

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