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Cartucho fora do ponto

Um pesadelo que carrego até hoje.

Ruy JobimDiretor da Escola de Rádio

Cartucho em cartucheira

Toda profissão tem o seu pesadelo. O pesadelo do cirurgião é uma gaze esquecida no paciente, o do piloto é o trem de pouso que não desce. O meu, durante anos, tinha o tamanho de um livro de bolso, uma etiqueta escrita à mão e um nome que até hoje me deixa tenso: cartucho fora do ponto.

Quem não viveu precisa imaginar a cena. Na minha frente, a mesa de som com seus botões gastos de tanto dedo passado ali. Ao lado, 4 cartucheiras, uma estante cheia de cartuchos enfileirados como soldados: a vinheta da rádio, o jingle da loja de móveis, o comercial da farmácia, a hora certa. Dentro de cada um, uma fita que não tinha começo nem fim. Ela girava em círculo, como uma cobra mordendo o próprio rabo (kkk), e o segredo de tudo era um bipe que o ouvinte nunca escutava (dizem que só os cachorros). Quando a gente gravava o cartucho, a máquina carimbava no início da fita um tom de mil ciclos, meio segundo de som invisível. Depois que o comercial tocava inteiro, a fita seguia dando a volta sozinha até reencontrar aquele tom. Aí parava exatamente no ponto, pronta para a próxima vez.

Era só esperar. E esperar, num estúdio de rádio ao vivo, era a coisa mais difícil do mundo.

Porque eu tinha pressa. O telefone tocava, o produtor batia no vidro, a música estava acabando e eu precisava daquela máquina livre para outro comercial. Então eu fazia o pecado: puxava o cartucho antes da hora. A fita parava no meio do caminho, em algum lugar entre o fim do anúncio e o bipe e voltava para a cartucheira com cara de inocente. Ninguém percebia. Nem eu. A etiqueta continuava bonita, o cartucho continuava no lugar certo. Ele só não estava mais no ponto.

E o cartucho não tem rebobinar. Essa é a crueldade da fita sem fim. Não existe voltar atrás, só existe dar a volta inteira.

A vingança chegava horas depois, às vezes no turno de outro colega, sempre no pior momento. Horário nobre, o patrocinador mais importante da casa, o diretor ouvindo no carro. Eu anunciava com a voz mais segura do mundo: "E agora, uma mensagem especial para você." Apertava o botão. E a rádio inteira ouvia, saindo do nada, um "...ções em até dez vezes sem juros!", seguido de um silêncio comprido, terrível, do tamanho de um corredor de hospital. Era o rabo de um comercial e depois o vazio, a fita girando muda em busca do bipe perdido.

Naquele segundo, o locutor descobre quanto tempo cabe em um segundo. Minha mão corria para o fader, abria o microfone, e eu improvisava qualquer coisa: a temperatura, o trânsito, uma piada sobre a fita que acordou de mau humor. Enquanto isso, com a outra mão, arrancava o cartucho culpado e o enfiava numa máquina livre para ele dar a volta e se encontrar de novo. Do outro lado do vidro, o produtor me olhava como quem olha um pobre coitado. E nessa hora, quase sempre, tocava o telefone do diretor. Ninguém precisava atender para saber quem era.

Hoje basta um clique e o áudio começa exatamente onde deve começar. É melhor, não discuto. Mas, confesso que era incrível aquela caixinha de plástico.

Para conferir os fatos narrados: o padrão de cartucho de rádio era o Fidelipac, conhecido como cartucho NAB, usado nas emissoras para comerciais, jingles, identificação da estação e música, e presente nas rádios até o fim dos anos 1990, quando MiniDisc e automação por computador assumiram. Pelo modo como a fita se movimenta, rebobinar é impossível. O tom de mil ciclos é o sinal de parada: gravado no início com meio segundo de duração, ele é detectado na reprodução e a máquina para pronta para a próxima vez.

Até hoje tenho pesadelos com cartuchos fora do ponto.

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