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A música que era nossa e não do aplicativo

Para ter uma música tínhamos que comprar todo o disco.

Ruy JobimDiretor da Escola de Rádio

Compacto do disco

Sou de uma geração que aprendeu a ouvir música com as mãos antes dos ouvidos. O primeiro disco que comprei foi do Elton John, Goodbye Yellow Brick Road. Comprei por causa de uma única faixa, a que eu ouvia no rádio e não saía da minha cabeça. Foi aí que descobri a mágica: fui atrás de uma música e descobri um álbum inteiro. Ainda reclamei do preço (só pra ouvir uma música!).

Era assim que funcionava. Tirar o disco da capa, soprar a poeira, colocar na vitrola, baixar a agulha devagar. Enquanto o primeiro lado tocava, eu lia o encarte, cada nome da ficha técnica, cada letra impressa. Ouvir um álbum era ouvir do começo ao fim, na ordem que o artista pensou. E era quase sempre coisa de grupo: amigos reunidos, disco emprestado, discussão sobre a melhor faixa.

Hoje a gente abre o celular e tem praticamente toda a música do mundo por uma assinatura mensal. Não vou fingir que isso não é extraordinário. O streaming democratizou o acesso e me apresentou artistas que eu jamais teria encontrado numa loja de discos. Ele já sustenta a indústria: em 2025, o mercado fonográfico brasileiro faturou R$ 3,958 bilhões, e o streaming respondeu por R$ 3,4 bilhões desse total.

Mas, algo se perdeu no caminho. Se fosse hoje, eu teria ouvido Goodbye Yellow Brick Road numa playlist e talvez nunca chegasse às outras faixas do álbum. A gente deixou de ouvir discos e passou a ouvir músicas soltas, sugeridas pelo algoritmo. Não gostou, pula. E deixamos de ter a música para apenas ter acesso a ela. Se a assinatura acaba, a coleção some.

Também me incomoda a questão de quem cria. O pagamento médio por reprodução fica entre US$ 0,003 e US$ 0,005, e esse valor ainda é dividido entre gravadora, compositores e editoras antes de chegar ao artista. Para quem vive de música, é preciso muito play para fechar o mês.

Por isso é bom ver que o vinil voltou. Nos Estados Unidos, as vendas passaram de US$ 1 bilhão em 2025, algo que não acontecia desde 1983. Aqui no Brasil, as vendas físicas cresceram 25,6%, puxadas pelo vinil. E o mais bonito: o público com menos de 35 anos é o que mais cresce, e não por nostalgia, mas por escolha.

Acho que essa garotada descobriu o que eu aprendi com aquele disco do Elton John. Tem coisa que a tecnologia facilita, mas não substitui.

O disco que a gente segurava nas mãos

Sou de uma geração que aprendeu a ouvir música com as mãos antes dos ouvidos. Lembro bem do primeiro disco que comprei: Elton John, Goodbye Yellow Brick Road. Comprei por causa de uma única faixa, a que dava nome ao álbum, que eu ouvia no rádio e não saía da minha cabeça. Voltei para casa com aquele disco duplo debaixo do braço como quem carrega um tesouro. E foi aí que aconteceu a mágica: fui atrás de uma música e descobri um álbum inteiro.

Era assim que funcionava. Tirar o disco da capa, soprar a poeira, colocar na vitrola, baixar a agulha devagar. Enquanto o primeiro lado tocava, eu lia o encarte, cada nome da ficha técnica, cada letra impressa. Ouvir um álbum era ouvir do começo ao fim, na ordem que o artista pensou. E era quase sempre coisa de grupo: amigos reunidos, disco emprestado, discussão sobre a melhor faixa.

Hoje abro o celular e tenho praticamente toda a música do mundo por uma assinatura mensal. Não vou fingir que isso não é extraordinário. O streaming democratizou o acesso e me apresentou artistas que eu jamais teria encontrado numa loja de discos. Não por acaso, ele já sustenta a indústria: em 2025, o mercado fonográfico brasileiro faturou R$ 3,958 bilhões, e o streaming respondeu por R$ 3,4 bilhões desse total.

Mas confesso que algo se perdeu no caminho. Se fosse hoje, eu teria ouvido Goodbye Yellow Brick Road numa playlist e talvez nunca chegasse às outras faixas do álbum. A gente deixou de ouvir discos e passou a ouvir músicas soltas, sugeridas pelo algoritmo. Não gostou, pula. E deixamos de ter a música para apenas ter acesso a ela. Se a assinatura acaba, a coleção some.

Também me incomoda a questão de quem cria. O pagamento médio por reprodução fica entre US$ 0,003 e US$ 0,005, e esse valor ainda é dividido entre gravadora, compositores e editoras antes de chegar ao artista. Para quem vive de música, é preciso muito play para fechar o mês.

Por isso fico feliz ao ver que o vinil voltou. Nos Estados Unidos, as vendas passaram de US$ 1 bilhão em 2025, algo que não acontecia desde 1983. Aqui no Brasil, as vendas físicas cresceram 25,6%, puxadas pelo vinil. E o mais bonito: o público com menos de 35 anos é o que mais cresce, e não por nostalgia, mas por escolha.

Acho que essa garotada descobriu o que eu aprendi com aquele disco do Elton John. Tem coisa que a tecnologia facilita, mas não substitui. Segurar um disco, ler o encarte e ouvir um álbum inteiro sem pressa continua sendo uma das melhores formas de viver a música.

E você, lembra qual foi o primeiro disco que comprou?

Pesquisa: Rolling Stone: vinil passa de US$ 1 bilhão nos EUA


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